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A LENDA DO CEMITÉRIO DOS TAMARINDEIROS

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*Nonato Reis

O lugar tinha uma atmosfera carregada, e não era pelo fato de ser um cemitério. Havia qualquer coisa de opressivo no ar, que eu não conseguia definir. Só sei que evitava por todos os meios cruzar o local, coisa que nem sempre conseguia, já que ficava no meio do caminho que dava acesso à casa do tio Abelardo, que chamávamos de Belinho. Vira e mexe me via diante daqueles túmulos escurecidos e abandonados, imersos no matagal.

Os mais antigos diziam que o cemitério fora construído pelos jesuítas da fazenda São Bonifácio do Maracu, marco inicial da colonização de Viana. Sua localização original era os fundos da igreja missionária, edificada de frente para o rio Maracu.
Do outro lado da margem do rio podia-se avistar a Quinta de Stanislau, originalmente, propriedade de Marcelino Trancoso, que fazia as vezes de médico e farmacêutico da comunidade. Isso no início do século XX. Ali ele mantinha uma farmácia de manipulação, aproveitando as propriedades medicinais da floresta, que se erguia ao redor.
O cemitério recebia encomendas de índios, escravos e colonos. Os jesuítas, por se julgarem pertencentes a uma casta mais à direita do Altíssimo, eram enterrados dentro da igreja, considerada “Casa do Senhor”.
Numa das extremidades, os inacianos plantaram dois pés de tamarindo que, dois séculos depois, resistiam ao tempo e se mantinham firmes, como testemunhas oculares da história. Ali, rente às suas raízes, diziam que os padres de barbas compridas haviam enterrado um tesouro de valor inestimável, assim que o Marquês de Pombal assinara a ordem de expulsão deles do território brasileiro.
A história era tratada como lenda, mas contam que, em meados do século XX, um grupo de forasteiros, dizendo-se técnicos (não se sabe do quê), estivera no Ibacazinho à procura de vestígios de pedras preciosas. Fizeram escavações nos terrenos da igreja e do cemitério, e ao colocarem detectores de metais em volta dos tamarindeiros, os aparelhos registraram fortes oscilações, indicando a concentração de ouro no local. Porém, jamais houve qualquer tentativa de exploração e resgate do suposto tesouro.
Se havia ouro enterrado ali, nunca ninguém conseguiu comprovar, até porque esse era um detalhe secundário. No que as pessoas se interessavam mesmo era pelos relatos de aparição de espírito e de fenômenos estranhos. Eu mesmo muitas vezes fui surpreendido com o estouro de uma lata velha de querosene que, parecendo arremessada do alto dos tamarindeiros, se estatelava no chão provocando um ruído ensurdecedor. Corria à procura do tal objeto e, para o meu espanto, dele não encontrava nem sinal.
Uma noite, Sebastião Xoxota, depois de “encher a lata” de cachaça, dirigiu-se para casa e viu a “coisa preta”, aliás, preta não, acinzelada. Ao cruzar o cemitério, um vulto de barba e batina escura estancou a sua frente, no meio do caminho. Dominado pelo álcool, Tião não sabia se sonhava ou delirava. Arrancou o facão da bainha e ordenou que o intruso liberasse o caminho. “Home, saia da frente ou te corto no meio!”. O vulto permaneceu estático. O primo, sem paciência, brandiu a arma no ar, mas não conseguiu acertar a aparição, porque seu braço petrificou e ele ficou com o facão suspenso. Teve febre durante três dias e foi preciso se submeter a uma sessão de tambor de mina, para afastar o espírito malfazejo.
Eu nunca vi espírito ali, mas sempre que passava naquele caminho, sentia uma coisa esquisita, como se ingressasse numa outra dimensão.
Um dia, céu claro de lua cheia, voltando da casa do tio Belinho por volta de 9 horas da noite, ao passar em frente aos tamarindeiros, ouvi um assovio agudo, que parecia vir da copa das árvores. Apressei o passo e o ruído soprou atrás de mim, seguido de um trote de cavalo. Corri feito louco e o “animal” também disparou em minha direção. De tão próximo, cheguei a ouvi o resfolegar do bicho e o mato ao redor se quebrando. Para não ser atropelado, joguei-me do lado e fui varrido para dentro do mato, igual folha seca. Depois, como num passe de mágica, o tempo voltou ao normal e tudo era paz e quietude. Olhei para o céu, a lua a pino parecia sorrir comigo.

* Nonato Reis é jornalista e escritor. Trabalhou nos principais jornais de São Luís. Foi correspondente da Folha de S. Paulo. Tem dois livros de romance publicados: “Lipe e Juliana” (2017) e “A saga de Amaralinda” ( 2018)

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